O Lugar onde a água aprende a parar

 


Não foi um colapso.

Naquele instante o corpo pediu descanso.


As coisas começaram poeticamente assim:

Os círculos, que não eram proteção nem prisão,

As cores não gritavam,

O núcleo convoca, permite a entrada.


O núcleo sempre chama.

Mas só entra quem não está tentando salvar nada.


Havia uma linha vermelha atravessando os dias.

Não era ferida aberta — era pulso.

Uma lembrança de que o sangue não se organiza em planilhas

e o desejo não obedece a avisos de perigo colados na testa.


Houve um tempo, que o mundo parecia exigir funções demais:

Ser ponte.

Ser resposta.

Ser adulto.

Ser inteiro quando só havia fragmentos disponíveis.


Subito me percebi:

Meu corpo engordou como quem constrói muralhas.

A mente correu como quem tenta chegar antes do medo.

E o desejo…

o desejo virou um animal inquieto, preso em um quarto tempo demais.


No relento ecoa:

Foi excesso de vigilância.


Desde cedo, alguém disse que havia algo errado no meu jeito de olhar,

no jeito de cruzar as pernas,

no jeito de querer sem saber ainda o nome do querer.


E quando se aprende que desejar é risco,

a gente aprende a desejar correndo,

desejar escondido,

desejar sem deixar rastro.


O perigo então pareceu seguro.

Ninguém pergunta, ninguém fica, ninguém cobra memória.

Só o corpo por alguns minutos e depois o silêncio —

que às vezes dói menos.


Mas o silêncio também cansa.


A palavra foi ficando espessa.

Dando espaço a desenhos que não serão vistos

Textos que não serão postados.

Ideias que pediam descanso em vez de explicação.


Havia espiritualidade ali, sem punição.

Uma espiritualidade cansada de moral,

querendo só um canto para sentar

e lavar as mãos sem culpa.


O desejo, tantas vezes acusado,

finalmente conseguiu falar baixo:

eu não quero destruir nada.

eu só quero existir sem pedir desculpa.


E talvez tenha sido isso o mais difícil de ouvir.


Porque significa abrir mão do castigo conhecido.

Significa não se corrigir o tempo todo.

Significa parar de prometer que amanhã será melhor

só para suportar o hoje.


Apesar disso, algo foi cedendo.

Não uma resposta.

Um ritmo.


O gesto ficou mais simples.

O caminho menos perfeito.

A urgência perdeu um pouco da força.


Descobri que ganhar

não é atravessar uma linha imaginária com o peito inflado,

mas reconhecer o momento exato

em que parar é um ato de inteligência emocional.


Havia desejo ainda.

Havia medo ainda.

Havia amor, flerte, ciúme, memória.


Mas, pela primeira vez em muito tempo,

tudo isso pôde sentar na mesma sala

sem que alguém precisasse ser expulso.


Termino sem aplausos.

Termino como termina a chuva fina:

sem anúncio,

mas deixando o chão diferente.


E quem passar por esse capítulo no futuro

talvez não se lembre de tudo.

Mas vai reconhecer o clima.


Vai saber:

foi ali que algo deixou de ser empurrado.

foi ali que o corpo parou de apanhar por desejar.

foi ali que a água aprendeu a parar.

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