Micelio
Hoje senti um cheiro que me lembrou você.
Fiquei impressionado com a minha memória olfativa.
No banho, abro um pote de cremes na casa da minha mãe —
lugar que quase não visito agora na vida adulta.
No banho, revisitando memórias guardadas
em papéis esquecidos no fundo das caixas.
E estava lá:
um cheiro seu.
Uma memória viva no ar,
que te pertence
e me alcança pela linha distante do tempo.
Saber que ainda reconheço seu cheiro
e que provavelmente reconheceria
outra parte sua existente em mim.
A gente tem consciência
do quanto marca alguém?
A gente sabe, de fato,
das ruínas que deixamos
quando partimos
e abandonamos construções
no corpo uns dos outros?
Será que ainda lembro
da sensação do seu toque?
Ou do sabor da sua boca no escuro?
Eu reconheceria, sem ver,
o calor dos seus dedos
nas minhas curvas nuas,
em estado de embriaguez?
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