Era
A muito tenho pensado
Nos fantasmas do passado
Quase dez, alguns mais...talvez
Horas que me vejo sentado
Na porta da sala
Admirando o jardim.
Vejo você diante dos meus olhos
Ainda sinto o cheiro do tabaco
Ou é floral?
Um certo tipo de colônia, talvez...
Uma, não sei ao certo, amostra grátis
De um perfume da Avon
De cueca vermelha...
De roupas de brechó da Santa Cecília,
De impressos dos livros pro TCC
Ah, da coleção de discos no chão de taco
Do Arouche, não, da Fradique... Hmm,
Ainda carrego comigo o ingresso
Daquela estreia que eu não assisti,
Quer dizer, que você não pode vir...
Na verdade, que você marcou comigo
Na Praça 14 Bis antes de ir pra Casinha
A gente comeu aquele takoyaki na Liba,
Ou foi aquele Falafel do Aljaniah
Não, foi o almoço fora de hora na Paulista
Minto, foi aquele café no Tomie...
Andando depois no Parque do Carmo,
Ou era Sesc Pompéia.. não me lembro,
Tantos você era, que já não me recordo
Seu nome... Era...
Ainda consigo ouvir sua voz
Ou, lembro dos seus olhos me admirando,
diante da fogueira,
Não, da TV, deitado em minhas pernas
Minto, diante do elenco ensaiando alguma
Asneira antropofagica que logo estreia,
E ninguém viu...
Ninguém viu, quando eu chorei
Sua perda,
Ninguém ouviu por que eu tava na beira
Ninguém viu, que me corria tristeza
E assim eu só fui indo e indo
Para frente e sentindo
Que já não tinha mais espaço
Pra flores mortas num vaso chique
Que me deu na saída do Ruth Scobar...
Não, daquele corte de tecido afro
Que usou pra secar minhas lágrimas,
Depois do spray de pimenta...
Minto, do voucher da janta naquele
Restaurante vegano, como era mesmo o nome?
Engano, foi na saída do Estadão
Depois daquele lanchão, era um guardanapo
De papel... E só.
Um tchau, até a estação.
Voltei pra casa com aquele único dinheiro na mão.
A promessa de volta
Que nunca realizou,
Só me entreguei ao vento
Esse sim, nunca me deixou na mão.
Era...
Alguma vez já se perguntou, de mim
Como naquela tarde que eu não te vi no Ibirapuera
5 horas de espera
Ou naquela tarde que fiquei com a galera
E você dizendo que logo chegava
Já era,
Deu minha hora, peguei o busão pra Lapa
E logo era eu no trabalho
Sentindo náusea
Por ter me perdido de você,
Em choro, dor de corno
Só pra mim... Quem dera
De você só tive aquela rusga
Que me assusta
Sim, ainda assusta.
Vejo seu rosto nas pessoas
Que não conheço.
Numa cidade nova, num trem..
Eu recomecei, sabia?
Agora estou em outra via.
Sentindo meu próprio tempo.
Era... Você se lembra da gente?
Ou somente eu que ainda lembro
Do abraço deitado depois do afago,
Ou da mão dada esperando o trem pra Sul,
Minto, do beijo roubado no trem lotado em Mogi.
Será que foi na rodoviária, sem nem ter perguntado
Seu nome...
Parti.
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