Endureci?

Os meus fragmentos agora se unem longe dos olhos de quem não me quer bem. 

Hoje minhas palavras são apenas incertezas que deságuam dos meus lábios e preenchem os espaços vazios desse longo caminho.

Será que endureci? Ou estou certo de que o presente é como eu sempre busquei: um pacote grande com sensações diversas em mim e um laço multicor pra arrematar meus erros e acertos.

Tem algo delicioso em envelhecer, que não dizem: meu corpo dói marcas que quando me lembro acabo por rir. As músicas tem outro sabor e textura assim como os chás sem açúcar no fim de tarde. 

Estou certo de que meu caminho não está desenhado a caneta. A qualquer momento as borrachas surgirão e ao soprar no vento a poeira me carrega e me transforma.

Não sinto que endureci, mas agora o momento me alinha rumo ao caminho que eu ainda não vivi. 

Me disseram uma vez que os corpos na contramão vivenciavam tudo atrasado: o primeiro beijo, o primeiro choro da perda, o romance adolescente atrás da igreja... Estou com 29 e sinto que tudo mal começou, minha vida adulta tem gosto de guaco e jabuticaba com gengibre no fim... 

Meus cabelos brancos começaram a aparecer, e meus olhos enxergam intenso o lugar que não enxergava nos homens.

Espero estar aproveitando bem o presente. Desembrulhando com cuidado porque eu junto papéis de embrulho no colchão desde o ensino médio e gosto deles, sobretudo dos que tem cor de bala ou de chá... 

Endureci como bala de goma secando no açúcar e estou feliz assim.


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