Sobre permanencer em Estado de Graça ou As batalhas por Espaços Afetivos


            Decidi ir pra uma festa (onde majoritariamente haveriam homens brancos) com alguns amigos. 
Nesse lugar o intuito era o de festejar a vida, celebrar mesmo, sem muitas pretensões, sem querer ser escolhido ou sem querer escolher. Querer estar presente, e dançar pelas próximas seis horas que nos cabiam de festejo.
            Por algumas horas, o estado de permanência parecia a fatia do bolo que nos cabia. Mas por muitos momentos, me isolei em alguns lugares onde eu podia sentar. Sentar e ver... Ver de verdade, quem estava ali e como estavam...
            Quase sempre me isolo de multidões; não suporto multidões... tenho um pouco de medo e acho que isso é normal, ou deveria ser... 
De repente, entendi que o jogo se completava assim : olhares, respostas, investidas e trocas afetivas... 
Com a maioria ali... a maioria bem seleta dali. Onde não me cabia, de fato.
            Guardei.
            Passei o dia contando pra mim mesmo o que vi; ressaltando os momentos em que notei que meus iguais me ignoravam ali, de verdade, meus iguais não imaginam que a cor de nossas peles possuem elos mais fortes que um sistema opressor, então de fato, ali, eu não era e jamais serei um igual. 
Eles em seus corpos esculturados, em suas roupas estilosas e suas falas "descontextualizadas" do universo afrocentrico que respiro, jamais notariam em mim algo que igualasse nossas identidades. Minha periferia não os atravessam, por que de lá não existe "eles".
            Passei alguns minutos mais ouvindo de um dos meus amigos, o sentir-se mal por desejar alguém e ser tido como "opção nula", já que nossos "iguais" desejam o corpo branco, padronizado e heteronormativo. Nos questionamos então do porquê fomos para aquela festa, e justo aquela festa.
            Será que o problema era mesmo a festa? O problema seria mesmo nós? O problema seria mesmo eles?
            Deitamos nossas cabeças todos os dias em um sistema que nos ensina que corpos negros periféricos são corpos desejados a partir de um complemento que os façam menos pretos e periféricos. Um status diferente de "ensino medio completo", "emprego meio periodo de sei lá o que!?" "roupa sem marca" ou "estilo alternativo (a menos que seja contextualizado num padrão militante chic".
            Entendemos esses mecanismos e nos adaptamos para pleitear espaço de afetividade mais humanizada, e as vezes, só encontramos fetichização, objetificação .. mas nunca AFETO.

            Nos debatemos numa fila imensa de negros que só se atraem por brancos...
            Nos debatemos numa fila imensa de brancos que só se atraem por outros brancos..

            Nos arrumamos. Saimos de Casa. Entramos num trem ansiosos para chegar numa festa e celebrar... 

"Mentira que não fomos lá buscar afetividade também... Somos assim." (diz meu amigo indignado com tudo o que ouvimos, vimos e de como tudo isso nos atravessou) 
  
            Eu sempre me conformo com o fim de festa, com o que sobrou, com os olhares atravessados que levei e ignorei porque me sinto superior a tudo isso. Sempre me conformo... 

Como me conformei em todos os relacionamentos que suportei em suas complexidades... Me conformo porque em outra posição eu não saberia estar...Não há representatividade de amor para mim... Nunca houve... Sempre há questões. Sempre há imposições. O querer do outro sempre é maior e melhor que meu querer... E as vezes, nem há eu... ou nós... Há o outro e seu desejo infinito de manter-se pleno diante de uma sociedade que o consome.

            Seria eu mais forte pra entender? Ou eu somente me conformei em defender os porquês do outro num ato de justiça que me condena... uma auto-sabotagem involuntária que me cabe, porque eu não consigo ser de outro jeito (ou não tento).


Em conversa com outro amigo, ouvi que "Aprendemos a amar da forma errada, provocamos sofrimento no outro e tentamos a todo o custo perceber quanta dor o outro consegue sentir por mim... Se não sentir dor, então este já não me ama...".

Me apaixonei tempos atrás por uma bixa periférica que pela primeira vez pude me reconhecer nos seus olhos. Nossas lutas se desaguavam no mesmo mar... Por algum motivo nos assustamos, nos distanciamos, e o que foi lindo durante semanas, se transformou em poeira no tempo... Parece até que nunca aconteceu... Somos distantes porque não sabemos lidar com afeto... com troca, e principalmente com reconhecimento.

Pretos se amando é resistência.

Mas nem todos os pretos que conheço querem resistir a esse sistema.

Meu corpo é mais um no meio de pontos brancos eurocêntricos que enxergam no corpo negro apenas um copo grande de Toddy pra beber de canudinho...

Nesse momento sou só "uma metralhadora em estado de graça". E conheço os limites de minha negritude frente a questões que estão nos outros e não em mim. Fica mais difícil fechar os olhos depois que eles abrem.

Por enquanto, nossa solução foi encontrar outras festas, com outro publico... e estar em barricadas afetivas... Por opção mesmo.

"Uma sociedade inteira já nos faz brigar por espaços de convivência, não quero ter que fazer isso no meu momento de lazer também".

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